Milk shake e poesia

Formada em jornalismo, a poeta Angélica Freitasnasceu em Pelotas (RS). Teve poemas reunidos em livro, pela primeira vez, em uma antologia de poesia brasileira contemporânea publicada na Argentina, intitulada “Cuatro poetas recientes del Brasil” (Buenos Aires: Black & Vermelho, 2006), organizada e traduzida pelo poeta e crítico argentino Cristian De Nápoli. Sua primeira coletânea de poemas “Rilke shake”, saiu pela Cosac Naify, em 2007. Pela mesma editora, acaba de publicar “Um útero é do tamanho de um punho”. Aqui, ela fala de sua relação com a comida.
Tem mania de comer enquanto escreve? 
Não sei por que será, mas geralmente não como enquanto estou escrevendo. Gosto de fazer um café, de ter uma xícara de café na mesa. É uma companhia. O gole de café é a pausa para pensar. Mas imagino que se escrevesse romances iria precisar de pausas mais longas, e aí a comida viria bem. Mas teria que ser algo que desse para comer com uma mão só.   
Algum prato/quitute te inspira (ou já inspirou) na hora de fazer literatura?
Sim. O sashimi e a profissão de sushimen me inspiraram um poema que imaginei em fatias fininhas como o peixe dessa comida japonesa. E o título do primeiro livro que escrevi, “Rilke shake”, é um trocadilho com milk shake e o nome do poeta Rainer Maria Rilke. Até hoje, algumas pessoas acham que o livro se chama “milk shake”. Acho engraçado. Deixo assim, não corrijo.   
Qual lugar a gastronomia/culinária ocupa na sua produção literária?
A função de deixar o meu cérebro mais feliz. Fico imensamente feliz quando como algo delicioso, e é nesses estados de felicidade que tenho mais ideias. Quando almoço sozinha, por exemplo, tenho zilhões de ideias para tudo. Um bom hambúrguer pode me deixar com vontade de escrever um poema. Adoro hambúrgueres.   
Poderia citar um autor que descreva comidas e cena de refeições e que te inspira?   
Eu penso agora num poema do Francis Ponge, que descreve maravilhosamente um pão:
O Pão
A superfície do pão é maravilhosa primeiro por causa desta impressão quase panorâmica que dá: como se tivesse ao dispor, sob a mão, os Alpes, o Taurus ou a Cordilheira dos Andes.
Assim pois uma massa amorfa enquanto arrota foi introduzida para nós no forno estelar, onde, endurecendo, se afeiçoou em vales, cumes, ondulações, ravinas… E todos esses planos desde então tão nitidamente articulados, essas lajes finas em que a luz aplicadamente deita os seus lumes, – sem um olhar sequer para a flacidez ignóbil subjacente.
Esse lasso e frio subsolo que se chama o miolo tem o seu tecido semelhante ao das esponjas: folhas ou flores são aí como irmãs siamesas soldadas por todos os cotovelos ao mesmo tempo. Logo que o pão endurece essas flores murcham murcham e contraem-se: destacam-se então umas das outras e a massa torna-se por isso friável.
Mas quebremo-la, calemo-nos: porque o pão deve ser a nossa boca menos objecto de respeito do que de refeição.
(Do livro “Alguns poemas”, lançado pela editora portuguesa Cotovia em 1996. A tradução é de Manuel Gusmão.)
Quais são suas memórias culinárias mais agradáveis?
Cresci entre velhas italianas que viviam cozinhando e nos empanturrando, a mim e às minhas irmãs. Eram nossas tias-avós, e duas delas moravam ao lado de casa. Passavam pratos e pratos de comida pelo muro do pátio… Me lembro das “tias”, como as chamávamos, fazendo ravióli, cortando a massa com uma carretilha… Uma dessas tias, Elvira, fazia a genial “Torta de Camadinha”, que era, como o nome sugere, uma torta com múltiplas camadas bem finas. Sei que levava nata, mel, castanhas… Mas, na verdade, a Torta de Camadinha era um mistério. Tia Elvira fazia tudo “a olho” e ninguém nunca conseguiu um resultado nem parecido. A receita teria saído de uma revista alemã e foi traduzida também “a olho” pelo Tio Rudi, marido dela. Enfim, sempre que vou à Alemanha saio em busca da torta perdida, mas nenhuma é a de camadinha. (Em Berlim há um café chamado Barcomis, e eles são ótimos e têm uma torta de noz pecã que me traz muito conforto espiritual, mas não dá pra comparar com a torta da tia Elvira.)
Como deve ser uma refeição perfeita para você?
Uma refeição que possa ser compartilhada. A melhor, na semana passada, foi um café da tarde (aqui no interior do Rio Grande do Sul temos esse costume) na casa de um amigo, o quadrinista Odyr Bernardi. Ele fez um pão maravilhoso e me disse: “Quebra com as mãos”. Partir o pão com as mãos é uma coisa emocionante. Ficamos ali um tempão, comendo pão quentinho com manteiga e queijo, tomando café, conversando.    
Sabe cozinhar? O que gosta de fazer? 
Não sei cozinhar muito elaboradamente. Gosto de fazer curry rice (o prato japonês), mas, claro, só com aquelas barrinhas de curry japonesas. E também gosto de fazer comida na wok. Corto verduras e legumes, refogo, jogo um shoyu… E é isso, nada demais. Para o café da manhã, gosto de fazer quesadillas, e as como com molho de pimenta.
Poderia dar uma sugestão de literatura em que é possível encontrar boa mesa?
Eu é que pergunto a você. Adoraria ler poemas sobre comida. Tem algum ou alguma poeta para me indicar?
Resposta: Acho que a maioria dos poetas se esquece de pensar nos prazeres do paladar e também no estômago, Angélica. Drummond, certa vez, disse que era um raquítico gastronômico. Pelo que lembre, há uns poucos poemas dispersos que falam sobre comida. “Feijoada á minha moda” (Vinícius) é um que sempre me lembro. Mas este você deve conhecer. Tenho a indicação de um livro, em prosa, da M. F. K. Fisher, “Como cozinhar um lobo”, de 1942, editado aqui pela Companhia das Letras. Você conhece? O poeta W. H. Auden a considerava a maior escritora americana de todos os tempos.
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