Ah, a Itália…

 
A artista Patricia Carmo é um dos nomes expoentes das artes plásticas no Brasil. Ela acaba de fazer uma individual na galeria Mercedes Viegas, no Rio de Janeiro. Três das obras expostas no lugar foram parar na top coleção de Gilberto Chateaubriand. Amante da cultura italiana, ela passou os 13 últimos anos em Roma, onde mantém seu estúdio artístico. Quando não está às voltas com o mundo das artes, escreve um blog com dicas para turistas na Itália: Guia de Roma. Na entrevista a seguir, ela fala da culinária local.
 
Quais os pratos italianos de que mais gosta?
Camarões vermelhos crocantes com salada de alcachofras cruas; tartar de atum; salada de camarão cozido ao vapor e puntarelle crocante (verdura que não existe aqui, uma variação da chicória, crocante, com notas amarguinhas e sabor fresco); espuma de queijo caprino e bottarga; espaguete com rúcula, tomate cereja e ricota; rigatoni a matriciana com brócolis; nhoque (normalmente servido às quintas-feiras). Além disso tudo, pizza… no restaurante Dar Poeta, em Trastevere; no popular Obitorio, que é extremamente barato, também em Trastevere; na Economica (no inicio da Tiburtina), ou no centro, no Baffetto, que fica perto da Piazza Navona.
 
Além das pizzarias, que já citou, onde comer estes pratos?
Frutos do mar, no restaurante La Rosetta; as pastas são deliciosas nas pequenas e tradicionais bettole. São casas de características romanas, trazem a essência da vida e do prazer de estar à mesa nesta cidade.
 
Em que a gastronomia romana se diferencia de outras regiões da Itália?
A gastronomia romana não é refinada como a da Toscana, é famosa pela tripa (tripa) com a mentuccia (prima da menta) e queijo pecorino. Hoje em dia, temos muitos restaurantes sardos (amor pelos frutos do mar) excelentes, que representam o espirito da cidade. Tem-se o hábito de comer peixe às sextas-feiras.
 
Poderia dar dicas de restaurantes bons e baratos em Roma?
Da Corrado, na Vicolo Della Pelliccia 39; Da Giovanni, que serve almoço e jantar, mas é preciso chegar cedo; fica na Via della Lungara 41ª; o Da Tonino, na Via del Governo Vecchio 18  e a pizzeria L’ Economica, na Via Tiburtina 48.

Você já se inspirou em comida para fazer obras de arte?
Não, nunca, mas a comida na Itália é pura cultura. Faz com que você tenha vontade de rezar.
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A feijoada do poetinha

 

No ano que vem, comemoramos o centenário do poetinha, Vinicius de Moraes. O Tudo al dente sai na frente e publica “Feijoada à minha moda”, este primor de poema, um os mais conhecidos, no Brasil, sobre o mundo da culinária. Inspire-se! Bom começo de ano novo!

Amiga Helena Sangirardi

Conforme um dia prometi

Onde, confesso que esqueci

E embora — perdoe — tão tarde

(Melhor do que nunca!) este poeta

Segundo manda a boa ética

Envia-lhe a receita (poética)

De sua feijoada completa.

Em atenção ao adiantado

Da hora em que abrimos o olho

O feijão deve, já catado

Nos esperar, feliz, de molho

E a cozinheira, por respeito

À nossa mestria na arte

Já deve ter tacado peito

E preparado e posto à parte

Os elementos componentes

De um saboroso refogado

Tais: cebolas, tomates, dentes

De alho — e o que mais for azado

Tudo picado desde cedo

De feição a sempre evitar

Qualquer contato mais… vulgar

Às nossas nobres mãos de aedo.

Enquanto nós, a dar uns toques

No que não nos seja a contento

Vigiaremos o cozimento

Tomando o nosso uísque on the rocks

Uma vez cozido o feijão

(Umas quatro horas, fogo médio)

Nós, bocejando o nosso tédio

Nos chegaremos ao fogão

E em elegante curvatura:

Um pé adiante e o braço às costas

Provaremos a rica negrura

Por onde devem boiar postas

De carne-seca suculenta

Gordos paios, nédio toucinho

(Nunca orelhas de bacorinho

Que a tornam em excesso opulenta!)

E — atenção! — segredo modesto

Mas meu, no tocante à feijoada:

Uma língua fresca pelada

Posta a cozer com todo o resto.

Feito o quê, retire-se o caroço

Bastante, que bem amassado

Junta-se ao belo refogado

De modo a ter-se um molho grosso

Que vai de volta ao caldeirão

No qual o poeta, em bom agouro

Deve esparzir folhas de louro

Com um gesto clássico e pagão.

Inútil dizer que, entrementes

Em chama à parte desta liça

Devem fritar, todas contentes

Lindas rodelas de lingüiça

Enquanto ao lado, em fogo brando

Dismilingüindo-se de gozo

Deve também se estar fritando

O torresminho delicioso

Em cuja gordura, de resto

(Melhor gordura nunca houve!)

Deve depois frigir a couve

Picada, em fogo alegre e presto.

Uma farofa? — tem seus dias…

Porém que seja na manteiga!

A laranja gelada, em fatias

(Seleta ou da Bahia) — e chega

Só na última cozedura

Para levar à mesa, deixa-se

Cair um pouco da gordura

Da lingüiça na iguaria — e mexa-se.

Que prazer mais um corpo pede

Após comido um tal feijão?

— Evidentemente uma rede

E um gato para passar a mão…

Dever cumprido. Nunca é vã

A palavra de um poeta…— jamais!

Abraça-a, em Brillat-Savarin

O seu Vinicius de Moraes

Texto extraído do livro “Para viver um grande amor”