“Hoje tem franga de almoço!”, falava Caio Fernando Abreu

 
Como os alquimistas que criam maravilhas na cozinha, o escritor Gil Veloso faz mágica com as palavras. Nesta entrevista, o autor de “O Menino Arteiro” (em parceria com Guto Lacaz), entre outros livros, fala de literatura, da sua cozinha afetiva e dos pratos que ele e seu amigo, Caio Fernando Abreu, degustavam juntos.

Sempre que faço cuscuz nordestino penso em você, que gosta deste prato. Poderia nos dar a sua receita?
Fico agradecido, seu cuscuz é melhor que o meu. É quase pornográfico o que acabo de dizer; o que posso fazer? esta palavra é tão plural… Faço da maneira mais simples possível, chamo de Cuscuz do Deserto – aprendi no Rio, com minha amiga, Numa Ciro, criatura puro creme do milho. Leva apenas farinha e sal; depois frito ovos na manteiga e deixo as gemas moles; preparo café, sem açúcar. Prefiro assim quando é de manhã, mas se no almoço, então reforço com abobrinha ou tomate. Faço também com jiló e até com quiabo. Enfim, do jeito que o diabo gosta.

Quais são os quitutes mais presentes em sua memória sentimental culinária?
As polentas feitas por minha mãe; lembro de ficar mexendo na panela de ferro, no fogão a lenha… De macarrão caseiro e também as cucas e pães assados no forno de barro. Lembro-me de comprar café e do cheiro moído na hora. Eu tinha nojo de tomar café com leite se tivesse um pouquinho de nata boiando… Hoje prefiro a nata e não tomo leite. Detestava pudim; lembro de meu pai uma vez perguntar: o que Deus está fazendo no céu? Respondi que Ele estava comendo pudim. Hoje gosto de pudins.Recordo-me também de tomarmos vinho tinto batizado com água, açúcar e gelo, coisa bastante comum entre as famílias lá no sul.

E hoje em dia, quais são os pratos de que você mais gosta?
Gosto de sopas de legumes, caldos… de saladas, aboboras, batatas, inhame, milho, mandioca. Carne acho completamente desnecessário.  Meu gostar é bastante destemperado; sou um bocado estupido com relação a paladar e o que diz respeito a comidas, aos ditos prazeres da mesa. Quanto a isso nada tenho de epicurista; tampouco sinto prazer em cozinhar, mas também não me aborrece. Prefiro lavar a louça,  o que faço com a maior boa vontade, afinal alguém tem de fazê-lo. Sou incapaz de preparar qualquer coisa que me passem a receita, e nos restaurantes detesto olhar cardápios. Acredite.Gosto das comidas nos rituais sagrados, as de santo no Candomblé, as oferendas no Taoísmo e de alguns pratos indianos.

Em algum momento, podemos encontrar comida, de forma geral, na sua literatura?
Talvez algumas referências em alguns contos, mas nada significante. Tenho um pequeno texto que diz “a ricota ri todo dia, sua cota fresca de alegria!” A pobre ricota é o menos nobre dos queijos, o queijo pobre. Ou seja, é rica só no nome.Acho estranho e me espanta que crianças e mesmo alguns adultos de hoje não saibam descascar laranjas, isso com a faca sem quebrar a casca. O que não deixa de ser um sinalizador dos tempos. Um ritual que pode acabar na brincadeira de descascar a tira toda inteira. Uma só tira e depois rodá-la até que se parta numa determinada letra do ABC etc. Mas talvez isso não tem nada a ver com a sua pergunta.

Você já conviveu tão de perto, por tanto tempo, com o Caio Fernando Abreu. Poderia falar dos gostos culinários dele?
Caio gostava de uma porção de coisas, não recordo nada especial; lembro de comer galinha assada por ele, que dizia: “Hoje tem franga!”, mesmo se fosse frango. Fazia com batatas etc. Gostava também de risotos, polentas, milho verde. Ele tem um conto muito bom: ex casados se encontram na fila de caixa num supermercado e um personagem passa a analisar o outro a partir dos víveres que este está levando em seu carrinho de compras. Muito interessante. Agora lembrei-me de um escritor alemão, que disse que o seu aroma preferido é o de um livro que acabou de ser impresso. Um outro alemão, o genial Nietzsche, disse “O que não nos mata nos fortalece”.Escritores são uma espécie de cozinheiros com suas palavras, condimentos, temperos, tramas, feitiços, encantos de Sheherazade; enfim, tentam prender pela boca.

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