Natureza: fonte inesgotável de inspiração

As cerâmicas de Hideko Honma são as preferidas de dez entre dez chefs estrelados nacionais. Basta olhar as suas formas, as cores delicadas, tocar nas xícaras, pratos e travessas para se perceber o porquê da escolha. Tudo é delicado, inspirador. Nesta entrevista, ela mostra que a sua sensibilidade artística passa também pela palavra. Boa leitura!

Quando começou a criar as suas cerâmicas? 
Há mais de uma década, quando iniciei o meu trabalho de cerâmica, fiz pratos enormes para acomodar as carpas fresquíssimas que o meu marido trazia das pescarias bem sucedidas. No final do dia, eu mesma preparava o sashimi. Limpava o peixe com uma faca afiadíssima e o cortava em tirinhas quase transparentes, depositando-as lado a lado sobre o  prato de cerâmica azulado, esmaltado e vitrificado com cinza de bananeira. Para acompanhar, criei seis tigelinhas em forma de mãos em cuia para aconchegar o arroz branquinho, branquinho. E, finalmente, torneei seis xícaras para servir o chá verde fumegante. Observando e ouvindo as necessidades da minha grande família durante as refeições, continuo adquirindo experiência para planejar e executar cada objeto essencial à mesa.
O artesanato/design japonês é conhecido por trazer em cada peça aspectos do uso diário. Parece que naquele país, a arte sempre tem uma função prática. Vejo seu trabalho assim, estou certo? 
Lembro-me de que, em 1990, recebemos a irmã octogenária do meu pai. Era a sua primeira visita ao Brasil. Não se viam há mais de 70 anos. Eles se separaram na infância e depois perderam o contato quando a Embaixada Japonesa na Manchúria foi bombardeada durante a I Guerra Mundial. Nesta ocasião, tia Sadako san, que fazia parte do corpo diplomático japonês na Manchúria, foi dada como desaparecida. No Brasil, nós a recebemos em uma pequenina cidade do interior de São Paulo, no espaço onde temos plantado: a casa de campo e o atelier de cerâmica da família. No almoço, confraternizamo-nos sob uma enorme jaqueira, que ainda hoje nos oferece enormes e suculentos frutos. Na ocasião, os frutos estavam estourando, prontos para serem colhidos e devorados. O aroma fresco e adocicado daquela tarde é inesquecível.  Na hora da sobremesa, colhemos uma das jacas maduras. E somente naquele momento, percebemos que não havia prato ou talher para servi-la. Ficamos um tanto quanto decepcionados com a possibilidade de saborear a fruta de maneira pouco civilizada perante uma visita tão particular. Em segundos, presenciei uma ação que abriu uma janela no meu pequeno mundo. Tia Sadako san juntou algumas folhas da jaqueira, passou cada uma delas em uma tigela cheinha de água fresca, sacudiu-as ao vento, em seguida, juntou dois galhinhos secos que encontrou sobre a grama, passou-os também na água, sacudiu-as ao vento e, transformando-os em hashi, foi elegantemente servindo os suculentos gomos de jaca sobre as folhas da grande jaqueira, que abraçava-nos, parecendo não se aguentar de tanta satisfação. Aprendizado memorável! Segundo os japoneses, a Natureza é fonte inesgotável de inspiração.
Em quais formas e produtos está trabalhando neste momento? 
Em peças e formas para alguns restaurantes baseados em conceitos muito interessantes. No início de abril, entrego uma seleção para 24 pessoas, para a residência do Cônsul Geral do Japão em São Paulo. Este cônsul é extremamente estético, detalhista.  Ele escolheu pessoalmente cada peça e detalhou todo o acabamento.  Alguns chefs querem a minha atuação bem marcada e, neste caso, expõem suas ideias e conceitos, oferecem-me a degustação e deixam a criação da cerâmica por minha conta. Outros chegam ao atelier com profissionais e projetos bem definidos, mas sempre acabam solicitando as minhas sugestões, que ofereço com muito prazer. E continuo a desenvolver os meus projetos de filantropia, como o Sukiyaki do Bem, que este ano será em setembro, sempre divulgando a cerâmica como um aglutinador social dos fazeres e saberes. Neste momento, também concentro-me em um novo projeto social em parceria com restaurantes e uma linda seleção de peças paro o lançamento Outono. Aguardem!
Quais são os objetos mais inusitados que já criou? 
O inusitado ou o diferencial do meu trabalho está na matéria-prima que empresto da Natureza. Em 1990, fui enviada ao Japão para uma especialização com o objetivo de aprender a técnica de utilização de cinzas de podas vegetais para a produção de esmaltes vidrados em alta temperatura. No Japão, esta técnica é comumente utilizada pelos ceramistas tradicionais e estes têm como  prática adquirir cinzas padronizadas de variados vegetais cada qual com a sua descrição e ficha técnica muito bem descrita. Uma das minhas experiências marcantes foi com a cinza do vulcão do Monte Aso. Quando voltei ao Brasil, a primeira imagem que me chamou a atenção foi um monte de grama fresca. Naquele momento, tive a certeza de que uma das matérias-primas que eu utilizaria abundantemente seria a grama. Além desta, ainda utilizo podas de bananeira, eucalipto, coqueiro e bambu. Transformadas, primeiramente, em cinzas e, depois, ao fogo na temperatura de 1300º C, esta matéria-prima transmuta-se em esmaltes vidrados azuis, verdes, marrons.
Quais as peças de cozinha mais prazer lhe dão, na hora de criar? 
Peças básicas, que recebem clássicos da culinária japonesa, são as minhas prediletas.  Para responder a esta pergunta, cito um poema da exposição Vazios e Pequenas Concavidades, realizada em 2012, no Pavilhão Japonês no Parque Ibirapuera: Tanto penso que transbordo em sonho, vontade, forma, cor, expressão.
E esvazio-me…
Penetro meus dedos no barro úmido e aguardo o torno girar, a água fria escorrer, o ar soprar, o fogo queimar.
Transpiro, crio concavidades, pequeninas tigelas, formas orgânicas simples.
Exercícios de usar e de viver.
Logo, constato em cada pequena concavidade um imensurável espaço vazio circundado por uma fina e frágil parede de barro, herança da Terra.

 


Recentemente, você esteve no Japão, expondo duas peças. Podia falar sobre a experiência?
A exposição Hideko Honma – Brasil a 1300º C  foi realizada na embaixada do Brasil, em Tokyo, em Novembro de 2012.Teve o apoio da Mitsubishi do Brasil e da Fazenda Tozan. A Fazenda Tozan é um patrimônio histórico fundada no século VII e seu proprietário, Sr. Toru Iwasaki, é o tataraneto do fundador da Mitsubishi, no Japão. Um dos  desafios foi criar novos designs de xícaras de café esmaltadas com podas do cafezal da Fazenda Tozan. O objetivo era mostrar a junção da técnica japonesa no fazer cerâmico com a utilização de matéria prima brasileira. Apresentei centenas de peças. Foi uma experiência gratificante e, na ocasião, o embaixador do Brasil Marcos Galvão nos ofereceu um jantar em sua residência.
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