Era uma vez o Chartier …

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Uma garçonete – a marroquina Kalima –apresenta-se à nossa mesa, ela tem ar crispado, voz cheia de energia. Num tom alto de voz, pede que não demoremos a escolher os pratos. Acostumada com hordas de turistas, ela faz mímica para dizer a uma de minhas amigas, que me acompanha na aventura, a diferença entre os peixes servidos naquela noite, bar, trute e salmonete. Em seguida, anota a bebida, as entradas e os pratos principais das cinco pessoas da mesa na toalha de papel, com letra nervosa, enquanto empurra meu copo, minha taça e os talheres.

A casa está repleta de turistas, que disputam em voz alta, um espaço confortável, entre as mesas do salão, umas coladas às outras.

Estamos no Chartier, casa inaugurada em fins do século XIX (1896), numa galeria da rue du Faubourg, Montmartre, no nono distrito de Paris, um bairro popular e festivo da capital francesa.

Considerada monumento histórico, em 1989, a casa tem prestígio e se gaba de já ter alimentado mais de 50 bilhões pessoas, sem perder a essência, que pode ser vista nas paredes rococós espelhadas até o teto, com molduras douradas, o pé direito alto, as luminárias de época, ambiente em que circulam, rápidos, os garçons vestidos com colete preto e gravata borboleta.

Desde o começo, o restaurante tem como meta servir boa comida por preços muito baixos. Kalima aparece trazendo cinco pratos nos braços, que são jogados á nossa frente, sem cerimônia. Alguns estão bons, outros nem tanto. É inevitável perceber a decadência do lugar, a falta de jeito dos funcionários com os turistas.

De bom humor, é possível se divertir por ali, mas é preciso estar de muito bom humor, para entender a gritaria e falta de jeito no trato com os clientes. Fico me perguntando se eles gritariam daquela forma com franceses. Aposto que não.

Bem, mas o restaurante tem lá seus encantos. Tornou-se um lugar pitoresco da cidade. Conforme Ana, restauratrice no Brasil, que me acompanha na aventura, a nossa garçonete, a Kalima, é profissional ao extremo. Não se envolve com os clientes, guarda distância, mas aos poucos a teoria da minha amiga se desfaz. Kalima troca umas palavras, fala do seu país, Marrocos, conta anedotas, passa a tutoyercada um ali das minhas amigas de ma cheire, depois, chega a se sentar conosco, para fazer a conta dos nossos gastos (também na toalha de papel, em números grandes irreconhecíveis aos meus olhos). Rimos com ela, que canta e diz gostar dos fregueses brasileiros.

Em certo momento, Kalima diz que temos de ir embora, pois a casa vai fechar, ela precisa descansar. Está correndo desde a hora do almoço. Olho para os lados e grande parte das cadeiras já está em cima das mesas. Alguns funcionários varrem o chão, em ritmo acelerado. Saio satisfeito com os pratos que escolhi– salada de endívias com roquefort; truta com amêndoas e batata e creme de marron, tudo por 18 euros -, e por ter pisado nessa instituição francesa, que resiste, atravessando, de forma meio bamba, dois séculos. Uma Paris que não existe mais.

Chartier: 7 rue du Faubourg Montmartre, 75009, Opera Garnier, Paris

 

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