Bom de pena, bom de garfo!

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“Pois sou um bom cozinheiro” faz um tour gastronômico pela vida do poeta Vinicius de Moraes. Não são poucos os escritores que têm relação íntima e amorosa com a cozinha. Certa feita, fiz um texto para o UOL, relacionado ao tema. Falei com o Humberto Werneck, o Luis Fernando Veríssimo e o Ignácio de Loyola Brandão, autores bons de pena e de garfo.

Segue o texto:

Vinícius de Moraes cantou a feijoada à sua moda. Anibal Machado, certa vez, desejou uma chuva de pasteis. Paulo Mendes Campos citou em varias crônicas um bolinho de feijão que comia quando moço. Já Hélio Pelegrino ia a Minas Gerais, sempre que podia, para se deliciar com galinha ao molho pardo.

A comida e os quitutes sempre foram matéria de inspiração para os homens da literatura brasileira. A lista não para nos nomes acima. Assim como Pedro Nava, Fernando Sabino e Murilo Rubião, Humberto Werneck tem preferência pelas empadas. Volta e meia, está em seu estado natal, Minas Gerais, atrás do seu salgadinho predileto. “Havia um bar chamado Trianon, no qual comia as melhores empadas do mundo. Ali, encontrava a santíssima trindade: a empada de camarão, a de galinha e a de palmito”, disse ele, convidado a falar sobre sua comida afetiva no evento Paladar Cozinhas do Brasil, realizado em São Paulo, que ainda contou com Luis Fernando Veríssimo, Ignácio de Loyola Brandão e Fernando Gabeira.

“Há 40 anos volto para Minas e ligo aos meus informantes para saber onde está a melhor empada da cidade. Certa vez, disseram-me que a melhor do momento se encontrava na cantina de um hospital. Lá fui eu em busca da empada perdida”, diz Werneck, que relembra a figura das “donas” mineiras da periferia, que faziam os melhores quitutes de Belo Horizonte.

Hoje, ele diz, é o fim da era dos salgadinhos reconhecíveis. “Antes havia coxinha, rissole, empadinhas, pasteis. Atualmente, os bufês servem salgadinhos que precisam de legendas. Dias destes, serviram-me uma pequena esfera acoplada a um tubo branco. Perguntei ao garçom o que era aquilo e ele só soube dizer que o tubo era um pedaço de cana-de-açúcar espetado”, diz.

Desde criança, Luis Fernando Veríssimo foi um gourmand. “Certa vez, ganhei um carrinho caro e o aviso dos meus pais de que era para eu tomar cuidado com o presente. Na mesma tarde, passou um menino vendendo pasteis na rua e não deu outra. Troquei na hora o presente pelo quitute. É minha primeira memória gourmet”, diz.

O escritor gaúcho conta que nunca foi um bom cozinheiro. “Tentei uma vez fazer uma omelete, mas aquilo acabou se transformando num purê de batatas. Desisti. Na minha casa, até o churrasco é a Lucia (sua esposa) quem faz. Uma desmoralização total do povo gaúcho”, conta.

Comer bem, isso ele sabe. Já escreveu dois livros sobre o tema, “A Mesa Voadora”, com crônicas culinárias, e “Clube dos Anjos”, romance no qual um grupo de amigos se reúne numa confraria gastronômica.

No volume de crônicas, Veríssimo diz ler receitas como se fossem poemas, e espera um  dia ouvir pesquisadores dizendo que bacon limpa as artérias. Ele cita uma visita à maison Troisgros, em Roanne, na França, na qual pensou em fazer uma proposta ao cachorro bonachão que vivia esparramado pelo restaurante do lugar. “A ideia era ele voltar ao Brasil e começar a escrever crônicas, enquanto eu ficava no restaurante. Ninguém ia perceber a mudança”, diverte-se.

As lembranças de Loyola Brandão sobre sua comida são ligadas a Araraquara (SP) dos anos 40, quando não havia um único fogão a gás na cidade. “No fogão à lenha de casa a chama nunca se apagava. Posso me lembrar até hoje do meu pai quebrando gravetos para alimentar o fogo, das manhãs em que ele nos acordava com o barulho do garfo batendo na xícara. Fazia gemada para a família todo santo dia”, diz.

“Posso me lembrar ainda hoje da primeira vez que entrou um liquidificador lá em casa. Aquilo foi espantoso. Minha irmã soltou um grito quando viu que eu batia leite com banana. Falou que aquilo dava nó nas tripas”.  O autor conta que, naquela época, não havia fiscalização da saúde pública, cada casa tinha um porquinho no quintal. Havia até um vizinho que criava seu bicho dentro da cozinha. “Esse aí, nos anos 40, já olhava para o futuro”, diz o escritor.

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