O cinema se rende à gastronomia

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Nos últimos meses, o cinema que se curvou à culinária. Entre filmes que retratam a cozinha, a vida dedicada à gastronomia, três chamam a atenção por estarem em cartaz ao mesmo tempo em São Paulo, Chef, Bistrot Romantique e A 100 passos de um sonho.

Fui assistir a este último ontem e, saindo, impossível não escrever meia dúzia de palavras sobre a trama. Primeiramente, me identifiquei com o protagonista que chega na cidadezinha francesa, sem saber a língua local e os costumes à table, aventurando-se na descoberta de um mundo de sutilezas, do tomate na horta da vizinha, das feiras que invadem as ruas centrais das pequenas cidades, com seus legumes, queijos rústicos e cores, às tardes dedicadas à ‘caça’ de cogumelo ou amoras selvagens em florestas do país.

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Acho que a maioria dos leitores deste blog sabe que, num certo momento da minha vida, eu também deixei o meu país e fui viver numa cidadezinha francesa, onde fiz curso de gastronomia e trabalhei em cozinha. Foi em Landéda, no porto de L’ber Wrach, onde estacionei uns anos, abrindo um restaurante, o Le Patio Gourmet, com o meu sócio e marido, na época, Yann Danjou.   

A primeira cena do filme mostra o jovem indiano Hassan Jadan (Manish Dayal) explicando à imigração francesa que a decisão em sair da Inglaterra, onde morava antes, vem do fato de que legumes em terras britânicas não têm alma.

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Assim que chega à pequena cidade francesa, devido a um acidente na estrada, a família de imigrantes é surpreendida por Margueritte, estagiária do Le Saule Pleureus, o restaurante mais badalado da localidade, que recebe chefes de estado, gourmets, e que ostenta uma estrela no guia Michelin.

A estudante recebe os Jadan com uma bela mesa de vegetais, queijos, azeite, pães, tudo feito em seu quintal ou por seus vizinhos, do queijo à charcuterie, como ela diz. Mas a ação do filme não gira exatamente em torno da Maison Mombai, que os indianos abrem num casarão de pedra, mas na casa da frente, o clássico francês Le Saule Pleureus, da madame Mallory, personagem divinamente defendida por Hellen Mirren.

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Hassan Jadan é jovem de talento nato para culinária. Num primeiro momento, faz com que Mirren proteste contra o exotismo do novo estabelecimento, declarando guerra ao cheiro de curry que vem da casa vizinha.

Em meio à guerra travada entre o tradicional e o exótico/diferente – verdade que a polarização é um tanto didática – o chef indiano passa a se interessar pela cozinha da França, mas com toques do seu tempero particular que ensinou com a mãe, morta num ataque terrorista, anos anos, na Índia. Mirren avisa que ele não pode dar nova roupagem a um receituário esquematizado e seguido a ferro e fogo por pelo menos 200 anos.   

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No entanto, o sonho da empresária Mirren de conseguir a segunda estrela no Michelin vai ser alcançado apenas quando se permite a conhecer mas profundamente a cozinha do país asiático, mo momento em que  dá carta branca para o jovem criar pratos tradicionais com seus temperos e cores. Mas o bonito do filme é que ela percebe que as estrelas são menos importantes do que a vida em comunidade, os novos vizinhos. Ela não só passa a aceitá-los, como começa a celebrá-los. Já o jovem cozinheiro percebe que ser famosos no circuito elegante de Paris é uma bobagem sem os cèpes que costumava colher com Margueritte, na floresta ao redor do pequeno vilarejo em que se passa a história.   

É um filme professoral, que passa seu recado de forma agradável. Tem belas imagens do vilarejo francês e tomadas bonitas em que cozinheiros se aventuram cortando legumes, carnes, grelhando filés de peixes, ao som de trilha instrumental belíssima. É um filme sobre gastronomia, mas a sua essência fala de amizade, da descoberta do outro, de tolerância.

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Trazendo para mais perto da gente, é por isso que sempre sucumbo a chefs como Mônica Rangel, Mara Salles, Edir Nascimento, Ana Luiza Trajano, Carlos Ribeiro, Cesar Ribeiro, Janaina Rueda, que parecem entender com a alma e cada poro do corpo as artes da cozinha (cozinhar é um ato de amor), em detrimento a pessoas obstinadas/afetadas, como Alberto Landgraf, do restaurante Épice, em São Paulo, que trabalham para conseguir mais uma estrela ou a benção e o badalo de comensais que gostam de se autointitular gourmet ou globetrotter, ou então daqueles, como meu amigo diz, vão a restaurante caro para ostentar fotos em redes sociais – forma mais feia de discriminação social não existe, na minha modesta opinião, bem, sem contar que é brega, não é? .  

É isso o que tinha para dizer, gente! Assistam a este filme! Bom fim de semana! Boa missa!  

Fotos: divulgação

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