As estrelas a trouxeram a mim

Hoje, o chef Gabriel Vidolim, do restaurante O Leão Vermelho, em São João da Boa Vista (SP),  estreia coluna no Tudo al Dente. Seus textos serão publicados mensalmente. A coluna de estreia traz o mundo onírico de seu encontro com a corte de Versailles. Leia abaixo:

versailles

Por Gabriel Vidolim*

Eu estava aos cuidados matinais do jardim, quando uma carruagem azul, com belos cavalos brancos plumados e uma flor dourada de liz, parou em frente ao meu portal.

Um mensageiro saiu da carruagem e perguntou por mim. Tinha, em suas mãos cobertas de brancas luvas e abotoaduras de ouro, um envelope com rosas do campo e morangos estampados.

Abri a carta e vi que trazia quatro francos de ouro, e uma carta que dizia assim:

A amizade entre Áustria e França foi selada através de um matrimonio.

Vossa alteza real, Marie Antoinette Josèphe Jeanne de Habsbourg-Lorraine, rainha da França, viaja tempo-espaço a esta terra longínqua e tropical, para uma noite de prazeres ardilosos nos Domínios do Leão Vermelho.

Ela chegará na noite de 31 de outubro, acompanhada de suas damas de companhia, de Marina Abramovic, a duquesa de Hudson, Vossa alteza real, princesa dos prados em branco, Nathalia Canto II e Lady Gaga, do Brookling.

Informamos que não ha restrições alimentares. Vossa alteza real confia em suas mãos de artesão. 

 Assinado: Jean Didier Robespierre

Curvei-me diante do mensageiro. Ele caminhou em direção a carruagem e  partiu.

Olhei para o jardim. Plantei 150 rosas, intercaladas com margaridas e amarilys lilases. Todas desabrochariam no 31 de outubro.

O portão que guardava os domínios estava cheio de jasmins-estrelas.

Verifiquei o estoque de chá. Encontrei o mais belo nó de Camellia Sineis. Colocado na água quente, em jarra soprada por artesões de Veneza, abriria-se na mais bela estrela de jasmim e em flores do Dragão da Alvorada.

Os talheres de prata foram duas vezes polidos. Os cristais eram novos em folha.

As flores do campo passaram, certo dia, a desabrochar. Sinal de que Marie Antoinette estava a caminho.

Ela chegou em noite coberta de estrelas. A lua cheia deixava sua pele ainda mais branca. Tocou o sino de nossa velha porta de madeira, sonando o Leão de Bronze na madeira.

Abri a porta.

O perfume era uma mistura de rosas, jasmim e brisa fresca. Eu me curvei diante do seu esplendor.

Ela entrou seguida de suas damas, estendendo a mão. Eu a segurei, com minhas mãos calejadas do trabalho na cozinha e jardim. Beijei-a.

“Cozinhe algo para nós, pequeno artesão. Nosso prazer esta noite está em suas mãos”, ela disse. “Faça-me esquecer das minhas obrigações com Verssailes. Traga-me os prazeres rurais de minha Áustria.”

Não pude deixar de notar como eram belas as mulheres que a acompanhavam. Marina era a mais velha. Na casa dos 65 anos. Os olhos eram grandes e o cabelo escuro e liso. Mostrava pelo decote seus peitos. Senhora Gaga flutuava em auras. Uma Elfa da floresta. A Princesa Canto, era de longe a mais bonita. Carregava estampado em seus braços um gato de Alice.

*

Cuidei dos prazeres dessas damas com espumantes de flor de sabugueiro, biscoitos de estrelas, frutas do dragão, peixes de águas cristalinas e batatas de cascalho. Servi chá, licores, sorvetes, chocolates. Depois, servi leite fresco com morango e baunilha de Madagascar, conchas de amêndoas, chifres de gazelas em caixinhas de papel. Maria Antoinette dava risadas. De vez em quando levava a sua mão branca aos lábios. As bochechas eram rosadas.

Ao final da noite, embriagadas pela luz das estrelas em suas taças, elas se levantaram. Quebraram o protocolo e deram dois beijos franceses cada uma na minha face, além de oito francos em ouro.

Marie Antoinette foi a última a se despedir, sussurrando em meu ouvido: “Vida longa aos Domínios do Leão Vermelho. Que a sua vida seja regada a Chambord, e que as mulheres que passarem em suas mãos sintam a sua delicadeza. Esperamos você na eternidade, para nos presentear com os frutos de suas mãos nos Campos Elíseos.”

Ela segurou nas minhas mãos e me beijou. Subiu a carruagem, e voltou para a sua época.

*Gabriel Vidolim é chef de cozinha, idealizador e proprietário de O Leão Vermelho, em São João da Boa Vista (SP). Já trabalhou trabalhou no Le Pré Catelan, no Rio de Janeiro e estagiou no Mugaritz, na Espanha. É colunista do Tudo al Dente. 

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