Heitor de cabelos afiados

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Por Gabriel Vidolim *

Heitor nasceu padeiro. Não teve tempo de ter pai nem mãe. Já nasceu padeiro e homem. Sempre com as mãos sujas do branco do trigo e os bolsos da calça manchados.

Sua única companhia durante a noite era seu fermento, que havia batizado de Benedito. Pela manhã, dormia, antes do sol nascer. O sono estendia-se  pela tarde inteira até o inicio de mais uma noite. Heitor nunca via o sol. Sua pele era branca, quase transparente. O rosto era quadrado. Tinha um bonito par de olhos castanhos. O cabelo  era escuro, liso e afiado, como os pelos de um rottweiler. Apesar de já nascido adulto, Heitor não tinha braços de lutador. Seus braços eram fortes. Mas modestos. Quando o silêncio das pessoas que dormiam pela cidade, acalmava as árvores, Heitor começava seu trabalho, a única coisa do mundo que conhecia e fazia.

Heitor tinha medo do seu reflexo, e essa era a razão porque não havia espelhos em seu quarto. Tinha medo de perder o fermento.

Vez ou outra, dormia sem escovar os dentes, depois de tomar uma caneca  de leite com chocolate e pão com manteiga. O chocolate deixava sua boca adocicada; o pão e a manteiga o abraçavam em simplicidade.

Heitor sentia, com frequência, o gosto metálico do sangue de sua própria boca. Tinha até medo de falar e mantinha o maxilar cerrado com bastante violência, para não correr o risco de  soltar palavras e pensamentos que estocava no seu peito.

Eventualmente, Heitor comia presunto. Tinha dinheiro, mas preferia guardá-lo em uma lata, que, além das notas, tinha um bilhete, que dizia: “Usem este dinheiro para meu funeral. Gostaria de ser cremado. Não se incomodem com as minhas cinzas. Joguem-nas no lixo.”

Certo dia, o dono da padaria notaria sua morte, era preciso estar preparado. Em seu quarto, Heitor dormia nu, fechava os olhos, e esperava o próximo anoitecer, e assim viveu. Até seus últimos dias.

*

Gabriel Vidolim é chef de cozinha, idealizador e proprietário de O Leão Vermelho, em São João da Boa Vista (SP). Já trabalhou trabalhou no Le Pré Catelan, no Rio de Janeiro e estagiou no Mugaritz, na Espanha. É colunista do Tudo al Dente 

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