Outono particular

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Por Gabriel Vidolim *

Quando maio chega, inundando minha respiração com seu hálito de folhas desidratadas e chá de maçã, meu coração bate descompassaste enquanto caminho pela calçada dos Manacás, que alimentaram a minha imaginação quando eu era criança.

Sento no sofá da Sala de Licores, e observo a serra assistir, do outro lado, o sol se por. Estou confortável entre almofadas de algodão cru, com uma boa caneca de chá de canela, e biscoitos amanteigados. Cada suspiro é uma dádiva, e cada momento, um prazer que nem mesmo o tesouro mais esplendoroso de Alexandria poderia pagar.

Nas nuvens que refletem os últimos raios do sol, as estrelas e os planetas dançam até que a luz se apague, para que a luz deles se acenda. Eles dançam para mim e mais ninguém.

As ervas no outono têm um sabor especial. Principalmente na lua cheia.

Uso-as com um pouco de manteiga derretida e uma massa fresca, que acabo de prepara… com ovos, grano duro e trigo. Preparo um delicioso banquete.

As abóboras crescem no jardim, as velas cantam na sala de sobremesas. Tudo está calmo. O inverno está a caminho.

Reserva

– Bom dia! Gostaria de fazer uma reserva.

– Perfeitamente, senhor, nossa mesa é única e nela somente o senhor se sentará.

– A reserva será para amanhã, chegarei pontualmente ao meio dia, e como já sou conhecido da casa, pagarei tudo ao final do mês.

– Perfeitamente, senhor Rodrigues.

– Até amanhã, vos quero muito bem.

Ao meio dia da manhã seguinte:

– Bom dia, senhora, infelizmente terei que cancelar a minha reserva. É que os canos que trazem a água deixaram de funcionar em minha casa, por alguma razão que ainda desconheço. Não me atreveria a sentar-me sem banho numa mesa de fino trato. Sinto muito. Fale ao proprietário que faço questão de pagar, ao final do mês, todas as despesas causadas por minhas palavras.

– Sem problema, senhor Rodrigues.

Na mesma tarde:

– Perfeitamente senhor, nossa mesa é única e nela somente o senhor se sentará.

– A reserva será para amanha, chegarei pontualmente ao meio dia, e, como já sou conhecido da casa, pagarei tudo ao final do mês.

– Perfeitamente, senhor Rodrigues.

– Até amanhã, eu os quero bem.

Na Manhã seguinte:

– Bom dia senhora, infelizmente terei que cancelar a minha reserva. É que os sapatos que protegem meus pés amanheceram rachados, provavelmente pela brusca mudança de temperatura, e como manda a etiqueta, não devemos frequentar distintos espaços, a não ser de fino trato. Portanto, sinto muito. Fale ao proprietário que faço questão de pagar, ao final do mês, todas as despesas causadas com minhas sinceras palavras. E saiba que eu os quero bem. Até mais.

Na mesma tarde, outra reserva é feita. E na manhã seguinte, a reserva é cancelada. A história se repete há cem anos e tornará a se repetir por mil mais, até que o pai encontre seu descanso, e o filho seu conforto.

*

Gabriel Vidolim é chef de cozinha, idealizador e proprietário de O Leão Vermelho, em São João da Boa Vista (SP). Já trabalhou trabalhou no Le Pré Catelan, no Rio de Janeiro e estagiou no Mugaritz, na Espanha. É colunista do Tudo al Dente 

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