Um jantar anacrônico com Leonardo da Vinci

Por Maria Carolina Freire Roberto de Lima *

ultima ceia vinci

Status: Em um jantar anacrônico com Leonardo da Vinci.

Check-in: Santa Maria Delle Grazie. Milão, Itália.

Anacronismo significa erro de cronologia, e expressa a falta de alinhamento, consonância ou correspondência com uma época. Ocorre quando pessoas, eventos, palavras, objetos, costumes, sentimentos, pensamentos ou outras coisas que pertencem a uma determinada época são erroneamente retratados noutra época.

A obra do ilustrador coreano Kim Dong-Kyu é repleta de anacronismo. Nela as pinturas de Van Gogh, Picasso e Renoir ganharam notebooks, smartphones e tablets. Essas intervenções criativas fazem parte de um projeto chamado “Art x Smart” criado por Kim, que consegue dar uma cara nova e atual a algumas obras de arte do passado, combinando-as com a tecnologia do século XXI.

O encontro entre o antigo e o moderno nos fazem pensar sobre a drástica mudança na interação social de hoje.

Mas a obra anacrônica mais famosa do mundo talvez seja, sem dúvida, “A Última Ceia”, afresco pintado por Leonardo da Vinci para a igreja de seu protetor, o Duque Lodovico Sforza, no século XV.

Jesus Cristo, personagem central da obra de Leonardo da Vinci, nasceu na Galileia, hoje uma província ao norte de Israel, no Oriente Médio. Portanto, Jesus era oriental. E, como todos sabem, na cultura tradicional árabe as pessoas comem sentadas ao chão e não usam talheres, comem com as mãos. “Comer à mesa” é um costume ocidental, que hoje está difundido pelo mundo.

Então, porque Leonardo da Vinci retratou Jesus de maneira anacrônica colocando-o sentado à mesa? Errou por desconhecimento da cultura de seu personagem? Claro que não! Leonardo tinha perfeito conhecimento desse detalhe. Mas muito mais do que somente inteligente Leonardo da Vinci era um homem extremamente refinado. Foi ele quem criou o uso do guardanapo, usado em refeições, por exemplo.

Desde a era dos faraós egípcios até o Império Romano, os poderosos exigiam regras de tratamento que os diferenciassem dos escravos e dos pobres. Assim teria surgido o conceito da “etiqueta”, um costume que ganhou força na corte francesa de Luís XIV.

O termo teria aparecido nessa época, quando era comum “etiquetar” (identificar) os visitantes de acordo com o sobrenome e o título de nobreza. Há também os que defendem que “étiquette”, em francês, vem de “ethos” (“ética”, em grego) – um sinônimo de respeito e reflexão sobre os pequenos atos cotidianos. Mas foi só no século 15, durante a Renascença, que as regras foram colocadas em prática para separar os nobres “legítimos” dos recém-enriquecidos burgueses.

Leonardo da Vinci, sem dizer uma palavra, colocou Jesus Cristo, o personagem mais importante da Renascença, o filho de Deus, sentado à mesa e, com isso, modificou uma sociedade para sempre.

Noblesse oblige.

*

Maria Carolina Freire Roberto de Lima é empresária, dona da marca de café gourmet “Café da Condessa” e vive em mundos paralelos: metrópole e roça (São Paulo/SP e Jacutinga/MG). Entre um cafezinho e outro, estuda filosofia.

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