“Mineira à la française”

bretagne france tourism

Por Maria Carolina Freire R. de Lima *

Quando criança eu era uma expert em piqueniques. Os fazia praticamente todos os dias. Tinha uma bicicleta Caloi modelo Ceci, daquelas com cestinha na frente, na cor rosa e lá ia eu depois da escola, sempre acompanhada de amigos e nossas respectivas lancheiras, por aí.

Nasci em Jacutinga, em Minas Gerais, cidade que hoje tem 23 mil habitantes, mas naquela época devia ter uns 15 mil, contando com a população rural, e, por isso, eu tinha muita liberdade.

Um dos ápices dos meus piqueniques era o caminho que fazíamos. Em uma das saídas de Jacutinga, em direção à cidade de Albertina, existia uma olaria cuja entrada se localizava em uma curva com certa declividade. Do lado de dentro do portão, que era aberto, ficava um cachorrão pretão “estilo Cérbero” (o cão guardião da porta do inferno) que não gostava de bicicletas.

Então, sempre quando chegávamos perto do portão pedalávamos com muita força as bicicletas e quando já na frente da entrada da tal olaria levantávamos as pernas enquanto o cachorro corria latindo nervoso ao nosso lado ou atrás da gente e a bicicleta descia o morro por seus próprios meios nos levando na garupa. Na volta, descíamos das bicicletas para empurrá-las a pé e o cachorro não se importava.

Eu adorava piqueniques por todos os motivos do mundo inclusive esse. Anos mais tarde descobri que quem entende mesmo de piqueniques são os franceses.

Outro dia, fui convidada a apresentar minha empresa de café aos alunos do curso de MBA da Audencia Nantes – École de Management, que fica na região francesa da Bretanha. A palestra aconteceu em São Paulo e depois de finalizada ganhei muitos presentes deles. A maioria foram produtos alimentícios produzidos em sua região.

Voltei para Jacutinga, coloquei todos os cadeaux sobre a mesa e me senti dentro de um piquenique francês. Caramelos, biscoitos amanteigados, confitures e vinho faziam parte do Menu. Fotografei-os todos e comecei uma degustação. Provei não apenas pelo paladar, mas tentando compreender o que os alunos de Nantes sentem quando comem. O que comemos e como comemos tem muito a dizer sobre nós. Então, quis decifrá-los devorando sua comida. Uma variedade moderna de canibalismo intelectual/social/glamoroso gastronômico.

Ainda quando criança, em Jacutinga, uma das minhas primas ganhou uma boneca alemã que falava alemão. Minha vida era tão restrita que essa foi a primeira vez que escutei outro idioma. Não tinha a menor ideia de que outras pessoas ao redor do mundo se comunicavam diferente de mim.

Anos depois estava na Champs-Elisées, em Paris, com um amigo jordaniano. Estávamos indo em direção a Galerie Laffaiette quando ele disparou a falar em francês me levando a reclamar: “Em inglês, Omar, não consigo entender francês tão bem!”, e ele retrucou: “Carol, algumas coisas só são ditas em francês.”

Rimos muito.

Hoje, continuo falando inglês muito melhor do que francês, mas vou mudar esse paradigma em minha vida.

E para começar vou comer outro caramelo francês. Oh-la-lá!

Maria Carolina Freire R. de Lima é empresária, cafeicultora e criadora da marca Café da Condessa.

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