Eu só quero chocolate – minha visita à Expo Chocolate

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Fui ontem passear na feira Expo Brasil Chocolate 2017, que acontece até hoje, 8, no Centro de Convenções Frei Caneca, em SP. O evento tem participação de produtores e comerciantes de todo o Brasil, e apresenta novidades, novas técnicas e melhorias na produção do chocolate, com a exposição de equipamentos, embalagens e matéria-prima.

No Brasil, a indústria do chocolate tem faturamento de R$ 12,4 bilhões anuais. E o consumo per capita é de 2,8 kg, por ano, igualando-se à Itália.

Meu foco era conhecer novos chocolates. Provei dois que gostei muito, o Espírito Cacau, da cidade de Linhares, no Espírito Santo; e o CasaLuker, da Colômbia.

Fundada em 1906 na Colômbia, a marca CasaLuker tem produtos derivados de cacau Fino de Aroma, com ampla gama de chocolates, massa e manteiga de cacau, cacau em pó e grãos de cacau com certificações em qualidade que atendem aos mais altos padrões internacionais. A Colômbia que é mundialmente conhecida por produzir alguns dos melhores cafés do mundo, também produz bons cacaus. Os chocolates CasaLuker (estão no estande da Emulzint) têm aromas frutais, florais e nuances de malte. São feitos com os cacaus Criollos e Tributários e são bastante originais, com gostinho de licor de chocolate, embora representantes da marca tenham me dito que não há álcool nos produtos.

 

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Outro chocolate que conheci foi o Espírito Cacau. Falei com o diretor de marketing da casa, Orlando Gligani, que trabalhou por muitos anos na marca Kopenhagen, decidindo deixar a cidade grande para morar próximo às plantações de cacau do Espírito Santo. Provei três deliciosos sabores, 31% (ao leite), 46% e o 70%. Bastou um mordida em cada um deles para eu perceber que os produtos são de primeira. Tem aquele gosto de chocolate de verdade, que é impossível encontrar nas gôndolas dos supermercados e mercearias do Brasil.

Ao olhar os ingredientes de uma barra de chocolate, você percebe que um produto tem quantidade boa de cacau olhando a sequência de produtos. A maioria começa por açúcar. Muitos trazem açúcar, leite, gordura hidrogenada e a massa de cacau vem lá no fim. Ou seja, o cacau passa longe desses produtos.

Os dois que provei na visita às Expo Chocolate trazem cacau como o primeiro ingrediente. Eles deviam servir de exemplo para a industrial nacional. São 100% naturais, saudáveis e saborosos, utilizando ingredientes naturais, isentos de corantes, conservantes (como a famigerada gordura hidrogenada) e aromatizantes.

Uma pena que a legislação brasileira do cacau é tão falha! Isso permite que sejamos enganados quando compramos uma barra. Na minha opinião, o chocolate da Nestlé de supermercado é o pior de todos. É até pior do que o Lacta e o Garoto. A Brasil Cacau e o Cacau Show têm alguns produtos bons, mas a maioria ainda é muito ruim. Gente, vamos melhorar o chocolate do Brasil?

Mas voltando à feira, visitantes que realizarem compras acima de R$ 30, na Praça do Cacau, concorriam ao sorteio de uma barra de chocolate de 20 quilos por dia, confeccionada pelo chef Ednei Bruno (Le Chef Gatô). O espaço da feira ainda tem exposição de bolos esculpidos. Mais de 80 profissionais foram convidados para inspirar o público com propostas bacanas de bolos decorados.

Bem, aproveitei a visita para tomar um Café da Condessa, com nossa amiga Maria Carolina de Lima, produtora de um bom café no Sul de Minas Gerais. A marca está com um estande na feira, servindo um café gostoso como sempre.

Se você gosta de chocolate de qualidade, vale conhecer a feira, que termina hoje. Veja mais informações aqui: http://www.expobrasilchocolate.com.br

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Dez pratos para curtir o verão no Rio

Cozinha Artagão_VGs grelhados, arroz de tomates assados, stracciatela e vinagrete de chorizo_Alexander Landau (1).jpg

Cozinha Artagão – Entre os pratos principais estão os camarões VG grelhados da casa, com arroz de tomates assados, Stracciatela e vinagrete chorizo (R$ 92). Barra Shopping, loja 147 – Rio de Janeiro. Telefone (21) 2431-9389.

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Fratelli – No restaurante italiano, vale experimentar o Polipo alla napoletana: polvo refogado no azeite, cebola, tomate, vinho branco, alcaparras e azeitonas, servido com arroz de brócolis (R$ 82). Av. General San Martin, 983 – Leblon. Tel: (21) 2259-6699.

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Aconchego Carioca – Boa pedida na casa da chef Kátia Barbosa é a salada da terrinha, preparada com folhas de abóbora, maxixe e castanhas de caju: refrescante e light! (R$ 17,90). Rua Barão de Iguatemi, 379, Praça da Bandeira – Rio de Janeiro. Tel: 2273- 1035.

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Sushi Izakaya Mok – O japonês Sushi Izakaya Mok oferece o hiyashi somen: macarrão fininho gelado em dashi (R$ 22). Rua Vinícius de Moraes, 121 – Lj C – Ipanema. Tel.: 2523 7026.

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Quitéria – Localizado no térreo do hotel Ipanema Inn, o Quitéria destaca-se pela qualidade do cardápio. Elaborada pelo chef argentino Christian Garcia, que possui vasta experiência nas cozinhas mediterrânea e asiática. A cada estação o cardápio é renovado com sugestões sazonais. Entre as opções, salada de lombo de atum, sementes, misto de folhas e brotos, manga e cupuaçu (R$42); salmão curado em cachaça e beterraba, chuchu em conserva, funcho e vinagrete de iogurte (R$41); e salada de queijo de cabra, abóbora e castanhas, vinagrete de mel com alecrim (R$29). Rua Maria Quitéria, n° 27 – Ipanema. (21) 2267 4603

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Temporada – O bar localizado no térreo do Hotel Arpoador teve seu cardápio renovado para o verão. Além disso, as charmosas mesinhas foram espalhadas pela calçada, oferecendo atendimento exclusivo a poucos metros do mar. O chef argentino Christian Garcia está à frente da cozinha, e aposta em um cardápio leve e com muita bossa. Entre as opções de entradas, tiradito de salmão com agrião e vinagrete de maracujá com shoyu (R$42); pastel de mariscada preparado com frutos do mar refogados (R$8 cada); e salada de aspargos trufados, molho de Grana Padano e azeite trufado (R$28). Rua Francisco Bhering, n° 65, Arpoador. Tel: (21) 2523 0066.

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Complex Esquina 111 – O badalado gastrobar Complex Esquina 111 aposta em pratos leves e refrescantes para este verão. Entre as opções, salada de quinoa, com abobrinhas, berinjela, cebola roxa, amêndoas torradas e queijo coalho na chapa (R$24,50); tartare de atum com azeite de baunilha, gomos de laranja e crisps de parmesão (R$33,00); e o ceviche de peixe branco com crisps de barôa e páprica (R$37,50). Rua Maria Quitéria, 111 – Ipanema. Tel.: (21) 3256-9375.

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A nova estação pede pratos coloridos e saborosos, como o atum com tomate (R$ 25), servido com crisps de espinafre do iVenga!. Excelente opção para um “tapeo” no fim da tarde. Rua Dias Ferreira, 113/ Loja B. Leblon. Tel.: 2512-9826.

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No Miam Miam uma das apostas para o verão é o levíssimo spaghetti de pupunha (R$ 58,80). A chef Roberta Ciasca serve o prato com camarões, coulis de alho assado, farelo de ervas, pignoles e azeitonas. De comer rezando. Rua General Góes Monteiro, 34 – Botafogo. Tel.: 2244-0125.

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O Garden, uma das casas mais tradicionais da cidade, aposta na deliciosa cavaquinha grelhada (R$ 132) como tendência de verão. É servida com molho de manteiga “café de Paris” e arroz de amêndoas. Rua Visconde de Pirajá, 631, loja B, Ipanema, Tel: 2259-3455.

Tempo de pinhão em Visconde de Mauá

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Todos os anos, nos meses que antecedem o inverno, Visconde de Mauá (RJ) se transforma na terra do Pinhão e da gralha azul. O pinhão (semente da araucária) é o principal alimento da ave e, graças a ela, o pinheiro tem conseguido se perpetuar em trechos da Mata Atlântica brasileira.

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Esses pássaros desmancham a pinha no galho, derrubam sementes e fazem germinar novas árvores pela serra.

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A importância do pássaro azul turquesa, de cabeça e peito negros – hoje em extinção -, é aprendida cedo na escola, pela meninada local.  Essas mesmas crianças envolvem-se diretamente com essa história.

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Como explica a chef Mônica Rangel, “elas catam pinhões no mato para ajudar os pais, que vendem a semente cozida, fazem farinha etc, movimentando a economia informal local.” Pensando na relação dos moradores do lugar com esta semente, Mônica pensou na Festival do Pinhão há 23 anos.

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Todos os anos, após a extração no meio do mato, mais de 50 restaurantes locais, entre Visconde de Mauá, Maromba, Maringá e Penedo oferecem em seus cardápios diversos pratos com a semente, muito identificada no Brasil com festas juninas, quando são assadas na fogueira.

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“O ingrediente é a cara de Mauá, é uma das bases da gastronomia local. Por isso, a cada ano, criamos um concurso, em que os restaurantes locais devem apresentar receitas originais que tragam pinhão, da entrada a sobremesa”, diz Mônica. Ela conta que além de servido em receitas diversas, o pinhão ainda vira farinha, que é usada por diversas famílias locais, durante um ano todo, para a criação de pães, bolos e biscoitos.

Uruguai muito além da parrilla

Texto e fotos: Giuliana Nogueira *
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Nos últimos anos o brasileiro descobriu seu vizinho, o Uruguai. Embora a vida para o turista seja quase tão cara quanto São Paulo, a combinação perfeita entre campo, cidade e litoral atrai bastante.
Cidades gostosas para caminhar, com boa parte da sua costa cercada por praias de água doce e ainda sim a poucos quilômetros do campo. Assim é o país, que ainda apresenta bons vinhos e boa comida.
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Com a chegada dos turistas, surgiu a inflação. Um taxista em Montevideo disse “Punta Del Este é para brasileiros e argentinos cheios de plata, não para nós.”
Comer em Punta Del Este pode sair caro, bem como se hospedar na cidade. Assim, restaurantes em cidades menores da moda têm chamado atenção dos turistas, como o La Huella em José Ignácio ou El Garzón, restaurante de Francis Mallman em Pueblo Garzón.
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As dicas a seguir não são de uma profunda conhecedora local, foi minha segunda vez no país. São dicas que consegui com uma uruguaia do ramo de restaurantes. A questão não é preço, nem lugares da moda, mas locais interessantes para descobrir um Uruguai que vai além dos famosos cortes de carne na parrilla.
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Montevideo
O Mercado de Puerto é realmente curioso, vastas opções de carnes assando na grelha em meio a um ambiente com áreas de bagunça, vale o passeio mas caminhe um pouco mais em direção ao centro para almoçar.
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Sem dúvida, um dos melhores lugares para se comer bem em Montevideo pertence a uma argentina. O Jacinto, de Lucia Soria, fica na Cidad Vieja, produz pães deliciosos e tem um menu muito bem executado a preço justo. Ambiente agradável e com um cardápio fixo incrementado por sugestões do dia, o restaurante certamente seria um sucesso em São Paulo. O risoto de beterraba com gorgonzola e nozes foi uma excelente pedida, bem como o malfati de espinafre com creme de leite fresco, amêndoas e pecorino.
A sobremesa do dia também foi uma surpresa, um mousse branco com aguaymanto (nossa conhecida como physalis), mais interessante que a torta de chocolate do cardápio fixo. Certamente, se eu voltar a Montevideo, visitarei o Jacinto (todas as fotos acima)
Trouville
Para comer a comida típica, o mega sanduíche uruguaio, o clássico chivito, vá sem dúvida o Trouville, no bairro de Pocitos. A apresentação é simples, mas a porção farta e o preço justíssimo. Provei também o pescado com manteiga negra e purê, de apresentação simples mas quantidade generosa, estava excelente (foto acima).
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Para quem vai para os lados do Hotel Carrasco, certamente será bem atendido se estiver disposto a gastar muita “plata” no restaurante do hotel, onde uma taça de vinho branco sai por 12 dólares. Se a ideia for mais econômica, de uma volta por trás do hotel, ali está a melhor empanada que provei em toda viagem e a um preço muito camarada, na rotisserie La Dos Estrellas (acima),  prove 3 ou 4 dessas pequenas delícias.
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Em Montevideo  você também pode ir ao irmão caçula, e mais econômico, do El Forno de La Barra, mas a casa não é tão bela quanto a original (foto acima).
La Barra
Próximo a Punta del Este fica a pequena praia de La Barra, seguindo o gps por uma hora onde parecia não haver nada a não ser mato, encontramos escondido o restaurante Al Forno (fotos abaixo).
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O cardápio apresenta ingredientes intrigantes trabalhados de formas pouco usual. A lasanha de centolha com abóbora chama atenção, e a Brótola (um peixe) com legumes na caixa de ferro também se saiu bem.
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Para mimar o cliente, a refeição começa com um ovo de codorna com dill e caviar. Mas vá sem pressa. Duas garçonetes são responsáveis pelo salão todo, o que é comum no Uruguai, então não se estresse.
(Leia na semana que vem a segunda parte do post sobre o Uruguai) 
Giuliana Nogueira é fotógrafa e RP da área da gastronomia

Portugal de tantos sabores

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Mesmo que Portugal seja um país de geografia relativamente pequena, sua gastronomia influenciou o planeta no decorrer dos tempos. Um exemplo disso são os famosos tempuras orientais, quitute associado à culinária japonesa, mas levado ao país do sol nascente pelos portugueses, por meio de seus bolinhos fritos, na época das grandes navegações, nos séculos XV e XVI.

O advento das navegações ainda fez com que o país da Península Ibérica passasse a usar muitos produtos do além-mar até então desconhecidos na Europa, como o feijão, a batata, o açúcar, além das especiarias. Isso fez com que sua culinária se desenvolvesse de forma diversificada, criando um país com vocação para a boa mesa, fato que pode ser comprovado nas diversas formas de preparo do bacalhau, da sardinha, do porco, de pães e doces, entre outros produtos que têm sabor único e que são a cara de Portugal.

A minha última viagem a Portugal foi em 2011. Viagem apaixonante. Conheci o país de norte a sul. Nunca me esqueço dos pores do sol no Vale do Douro, na tarde que passei na bela propriedade produtora de vinho e azeite Quinta do Crasto.

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Pois, esta semana, visitei um pedacinho de Portugal. Trata-se do Bar Espírito Santo, uma tasca charmosa que fica no Itaim Bibi, em São Paulo. Por um instante me vi em Portugal. Bastou provar um bolinho de bacalhau, delicioso, frito em óleo novo, que fazia com que o sabor do peixe, do cheiro verde, do alho se desprendessem deliciosamente na altura da minha cara.

A produtora e empresária da área da gastronomia Reila Criscia, que me acompanhava, disse que eu devia provar a sardinha frita da casa. Lá fomos nós pedir o quitute. Este peixe pequenino, que possui de 10 a 15 centímetros, é o mais abundante na costa portuguesa. Já chegou a ser alimento de base da dieta portuguesa em alguns momentos da Idade Média, quando era consumida frita em azeite, sob um pedaço de pão.

Fresca, salgada, em conservas, grelhadas ou assadas na brasa, recheadas e com molhos variados são outras formas de preparo que a sardinha ganhou com o passar dos tempos.

Sempre associada aos povos mais pobres, já chegou a ser excluída dos livros de receitas da cozinha portuguesa. Foi, no entanto, redescoberta há pouco tempo como possibilidade saborosa pela alta gastronomia.

Hoje, figura tanto nas mesas populares, como em criações de grandes chefs.  A importância deste peixe é tão grande ao país, que, desde o começo deste ano, a Associação Nacional das Indústrias de Conserva de Peixe atribuiu-o uma certificação, para que o produto ganhe em competitividade frente a peixes vindos de outras localidades da Europa.

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Já que estávamos as voltas com os alimentos do mar, nada mais justo do que pedir uma frigideira de polvo com cebola e batata. O fruto do mar desmanchava na boca, trazia gostinho de comida fresca.

Em seguida, foi a vez de visitar a terra.  Apesar de ser associada, principalmente no Brasil, ao bacalhau, a cozinha portuguesa tem uma tradição grande de pratos à base de porcos, dos quais se destaca os alentejanos, o porco preto, que tem origem mediterrânea, ou os bísaros, que têm origem celta. Todos viram belos leitões assados e presuntos, ou então um dos produtos de maior destaque desta culinária do país, os enchidos, ou, como chamamos no Brasil, os embutidos, criados devido à necessidade de se conservar carnes de animais abatidos.

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Feitos com tripas recheadas com carne marinada no vinho tinto com alho, grãos de pimenta e sal, podem ser feitos “à pobre” ou “à rica”, dependendo dos produtos que leva, como gordura, farinha de milho, cebola, alho, miúdos, carnes nobres etc. Entre os enchidos mais conhecidos do país, destaque para a alheira, feita por povos judeus com coelho, peru e galinha, no lugar do porco, já que o judaísmo proíbe o consumo desta carne.

Este tipo de enchido nasceu na região de Trás-os-Montes, e é frequentemente considerada uma das mais famosa do país, talvez pela história poética que se conta de que os judeus queriam tanto fazer parte da tradição culinária portuguesa, quanto não perder os laços com suas próprias tradições. No quesito ‘terra’, pedimos um sanduíche de pernil, pão francês recheadíssimo, que ficou estupendo com a pimenta feita na casa. As alheiras fritas à moda do Bar Espírito Santo chegaram a mesa deliciosas.

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Para encerrar o banquete, pedi o bacalhau da casa, este prato que se tornou a cara de Portugal, embora o hábito de se comer este peixe tenha se criado entre a Islândia e a Noruega no século IX, com os povos vikings, foram os povos da Península Ibérica que passaram a comercializar o produto curado, para que fosse melhor conservado.

Os portugueses começaram a consumir este peixe em abundância na época das grandes navegações, pois precisavam de produtos que não fossem perecíveis em suas longas viagens.

Há registros de que no começo do século XVI, navegadores portugueses rumavam para as águas geladas do Canadá para pescar este peixe, que logo se introduziu à alimentação diária do povo. A tradição do bom bacalhau à mesa foi levada adiante até os dias atuais, em assados, ensopados, grelhados e arrozes.

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A força do produto é tão grande no lugar, que há regiões em que cada família tem uma receita diferente da outra. O menu do Bar Espírito Santo tem várias delas. Pedi à moda do chef, assado em posta alta, com cebola, batata e ovo cozido. Desmanchava na boca.

O azeite. Bem, como fazer da culinária portuguesa abordar o azeite? Trata-se de um dos produtos gastronômicos mais antigos de Portugal, talvez o primeiro a ser exportado para as colônias e para o Oriente. No século X já há referência à cultura das oliveiras e no século XIV o produto é descrito como um dos alimentos mais preciosos no comércio local, juntamente com o sal, o pão, o vinho, porcos e peixes.

Mais tarde, no século XVI, além de ser usado na culinária, passou a ser usado na iluminação de tochas das casas e das ruas das cidades. Assim, o azeite português começou a ser exportado também para o Norte da Europa, até que voltasse a ser matéria-prima chave na gastronomia portuguesa, entre os séculos XVIII e XIX.

O Bar do Espírito Santo usa algumas variedades do Herdade do Esporão, extra virgem, claro. Fresco, extraído recentemente.

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Os pães também são base da alimentação portuguesa. Há aqueles que levam na massa ovos e azeite, alguns que levam recheio de chouriço, frango desfiado, e azeitonas verdes. Eu pedi pão doce em forma de rabanada. Estava macio, saboroso, e acompanhava bola de sorvete de creme.

Para finalizar, não podia deixar de fora a doçaria portuguesa. Seu receituário data do século XVI. Teve origem em conventos e mosteiros. Comi um pastel de nata morno, delicioso, quitute que teria nascido no Mosteiro dos Jerônimos, conforme a história. Assim foi a minha noite portuguesa, sem sair da minha cidade. Claro nada substitui viagens, mas foi bom visitar Portugal sem sair de São Paulo.

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Serviço: http://www.barespiritosanto.com.br/espiritosanto/

Fotos: Antônio Carrion e Luna Garcia/divulgação  

A Roma gastronômica da Letícia Rocha

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Na semana passada, numa tarde quente e preguiçosa de Roma, prometi uma lista dos melhores cacio e pepe da cidade. Jantei em vários lugares bacanas, fiz algumas anotações, foi quando recebi um email da minha amiga a jornalista e pesquisadora de gastronomia Letícia Rocha com dicas preciosas da cidade. Ela está por lá há mais de um ano e sugere programas um pouco distantes dos lugares turísticos da cidade. Aliás, comi em alguns perto do Coliseu e os achei uma roubada.

Não vou dar serviço com os endereços sugeridos pela Letícia. Achei tudo dando uma googada, super simples. Caso você se perca ao procurar um desses lugares, me escreva (tudoaldente@tudoaldente.com.br), que te guio até os lugares.

Vamos às dicas:

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“A cozinha romana é carbonara, cacio e pepe (pecorino e pimenta do reino), amatriciana (tomate, pancetta, pepperoncino/pimenta), gricia (amatriciana sem tomate), nhoque alla romana e coda alla vacinara (rabada).

Onde provar: no Trastevere, bairro típico de tratorias. Mas fuja das ruas principais. Roma Sparita é uma boa opção, já ficou famosinho depois do Antonhy Bourdain, mas ao menos, não fica tão no buxixo.

Perto do Vaticano, a uma quadra do metro, na Via Otranto, na esquina, está o Luma Bistrô, com massas feitas no dia. É frequentado por locais. As sugestões que custam cinco euros, no almoço. No jantar também funciona, acho que com cardápio. Perto do Pantheon, um clássico é o Alfredo del Pantheon, mas melhor reservar ou chegar bem cedo.

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Street food: prove o suppli (bolinho de arroz, primo rival do arancini, com ragu e queijo); a pizza al taglio/quadrada e por peso; porchetta, servida quase sempre em sanduiche. Prove ainda as castanhas no outono (marrons ou castanhas portuguesas). Nesta época do ano elas estão por toda parte. São assadas na rua.

Pizza: prove a ‘bianca’ (como uma focaccia) e pizza ‘rossa’ (só com molho tomate, picante ou não). Piazza bianca com mortadela é uma delícia!

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A melhor pizza quadrada/pão/branca/rossa, pra mim e muitos romanos, e do Panificio Mosca, funciona desde 1916. Fica na Via Candia, extensão da via do metrô Ottaviano, o do Vaticano. Como é bem local, daquelas coisas que não tem senso na Itália, pode fechar no almoço, tem pausa durante a semana (colada neste metrô tem a Lemongrass, sorveteria).

Pizza redonda: nem pense em pedir para mudar o recheio ou fazer meia a meia. O italiano pode voar no seu pescoço.

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A melhor da vida fica na Via del Governo Vecchio, travessa da Piazza Navona (onde está a embaixada do Brasil). Chama Baffeto. Eles são mal humorados, tem fila, não aceitam cartão. Mas é surreal de bom. Vale muito. Essa ruazinha é bem fofa, mas tem que filtrar porque ficam caçando turistas. Ali, na via del Fico, tem o Bar del Fico, clássico do aperitivo dos romanos (das 17h até máximo 21h). Depois, o italiano costuma ir para casa jantar (risos).

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A melhor bianca fica no Roscioli, região do centro histórico Campo dei Fiori (um pouco depois da Navona); ali também há uma massa carbonara dos deuses (para almoçar, jantar, faça reserva). Dá para comprar e comer na rua). Ainda por ali, tem o famoso Filetto de baccala, local que vende filé de bacalhau enorme por cinco euros. Você entra praticamente na cozinha e pega o prato da mão da cozinheira, que acabou de fritar o peixe. Todos no local conhecem o Filetto, que se tornou bem turístico.

Ainda no Campo dei Fiori há a feira mais famosa de Roma, pecado que já vende coisas industrializadas, mas ainda tem coisas boas. Vale a visita. Funciona todos os dias até 12h, menos no domingo.

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No canto da praça, há o Forno, que também concorre como melhor pizza e o Obika Mussarela bar, que, como nome diz, é um bar especializado em musssarela, tudo D.O.C.. É o único restaurante dessa praça que eu aconselho.

Os vinhos da região não são muito famosos, mas, sem pretensão, um Frascati, branquinho gelado, vai bem. O mundo cerveja artesanal na Itália está em franca ebulição: boas cervejarias são a Birra del Borgo, Baladin, Lariano. A Open Baladin é um bar sociedade da Baladin com Borgo. Fica perto do Campo del Fiori e tem mais de 30 cervejas em spina/chope; com cardápio de Gabriele Bonci, que tem a fama de fazer a melhor pizza da cidade (e agora hambúrguer).

No Trastevere, tem a Bir & Fud; e, por ali, também tem um pub bem romano e cervejeiro, o Ma Che Sei Venuto a Fa.

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Gelato: experiente os de fruta, melone (mnelão) e fragola (morango), dois sabores que não têm nas sorveterias italianas do Brasil. São dos deuses. Gelaterias boas: Gelateria del teatro, Grom, Carapina.

Outro clássico da cidade é o tiramisu do Pompi. Incrível! Fica na Piazza di Spagna.

Zonas mais descoladas: Pigneto! La, Circolo degli Artisti (bar, show, expo) e via del Pigneto. Já Monti é alternativo cool, caro, mas fofo. E tem San Lorenzo, que é área mais universitária. Tem hamburguerias boas: Ferrovecchio e Hamburgueseria.

Em Roma o metrô fecha cedo, às 23h30; sexta e sábado, 1:30. Mas a cidade é bem servida dos ônibus noturnos sinalizados nos pontos pela letra N.

Ah, a água dos ‘bebedouros’ é potável, fresca e deliciosa.”

Fotos: Antônio Carrion e banco de imagens

Para saber mais sobre o projeto da letícia em Roma: https://www.facebook.com/pages/Rome-Sweet-Rome/467436096672599?fref=ts

Uma praiazinha de areia branca

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Na língua dos índios guaranis, Tabatinga quer dizer praia de areia branca e fina. É também o nome de uma das praias mais bonitas do litoral norte de São Paulo, a apenas 190 km da capital, uma baía de águas rasas rodeada por ilhas, entre Caraguatatuba e Ubatuba, onde o rio Tabatinga se encontra com o mar.

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Do lado norte da praia, há uma vila rústica de pescadores, que conheci ainda criança, quando ia ao litoral norte com a minha família. Devia ter, mais ou menos, 10 anos e a paisagem faz parte do meu roteiro sentimental de viagens. Me lembra manhãs ao sol, castelinhos de areia, arroz com mexilhão, peixe fresco frito, ensopadinho de camarão, picolé de coco e bolo de laranja com cobertura de chocolate.

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O que não conhecia neste pedaço de paraíso é o condomínio Costa Verde Tabatinga, onde está situado o hotel boutique Costa Verde Tabatinga Hotel, pequena joia entre as montanhas da Serra do Mar e as águas claras do Atlântico, onde passei o fim de semana.

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Fundado há mais de 30 anos, o hotel hospedou inicialmente empresários que construíam suas casas na bela baía cercada de Mata Atlântica e de frente para a Ilha do Tamanduá.

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Em 2011, o Grupo Royal São Paulo, que atua no setor de turismo e investimentos, assumiu a gestão. De maio a novembro daquele ano, o hotel passou por uma grande reforma, com decoração que valoriza a cultura regional, em artesanatos e jardinagem (muito bem cuidada), em que não faltam salas de leitura, espaços externos para drinks, salões de festa, tudo cuidado nos mínimos detalhes.

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Um dos meus espaços preferidos é o lobby que traz um sofá-barco e cadeiras de vergalhão italiano, enfeitado com vasos de orquídea, objetos de cerâmicas e abajures, um espaço aconchegante de onde é possível ver tanto a vegetação da montanha como o mar, que estão presentes o tempo todo – e bem próximos da gente – com suas belezas e perfumes.

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Chegando ao local, me impressionou o drink de ‘boas-vindas’, ao lado da recepção, numa mesa com frutas e água aromatizada, fui pro quarto, claro e amplo, de frente para as montanhas.

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Lá, encontrei frutas frescas, além de uma caixinha de quitutes da Cheesecakeria. Como resistir?

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Cheguei na sexta-feira ao local Uma visita ao restaurante Manduca, que fica dentro do Costa Verde Tabatinga Hotel, foi mais do que providencial. Decorado com patchwork de papéis de parede e mix de tecidos e estampas lustres coloridos, além de uma bela coleção de louças criadas especialmente para a casa, todas pintadas uma a uma, a casa impressiona pelo visual.

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O chef do Manduca, Rafael Machado, traz em seus pratos influências regionais caiçaras em leituras modernas. Um dos primeiros que pedi foi a casquinha de siri com leite de coco.

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O peixe do dia veio em seguida, com arroz à grega, tudo fresquinho. No menu com couvert, entrada, principal e sobremesa (por R$ 95) ainda veio uma taça de sorvete de chocolate com calda de chocolate ao leite e farofa. Não sei se foi o cenário, se estava no lugar certo, na hora certa, mas me pareceu o melhor sorvete do mundo. Tanto é que o repeti em outras refeições nos dias seguintes.

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O restaurante e seu entorno foi um dos meus locais favoritos da viagem. Durante o verão, a hospedaria leva chefs convidados para almoços a quatro mãos com o chef do lugar. No fim de semana passado, estava lá Rafael Alvarez, do Cena, restaurante da capital paulista. Ele serviu, no bar da piscina, petiscos e amuse-bouche de pato desfiado, mini-hambúrguer de vegetais e bacalhau, quadradinhos de melão com presunto cru, bolinho de carne seca com mandioca.

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No almoço, pedi um risoto de camarões muito frescos com açafrão. O fruto do mar costuma ser comprado dos pescadores locais. Conheci um deles, por acaso, enquanto passeava na praia, o seu Adalberto. Ele me contou que o Tabatinga Hotel costuma valorizar os trabalhadores/pescadores da região, coisa que já imaginava.

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À noite, o jantar feito a duas mãos, pelos dois Rafael teve direito a música ao vivo. Pedi nhoque de banana da terra recheado de queijo coalho com molho de leite de coco e tucupi, acompanhando peixe branco grelhado, mais uma vez fresquíssimo, um prato fez com que eu dormisse feliz.

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Na manhã de domingo, a hospedaria serviu um brunch com massas recheadas, frutas, bolos e vários pães feitos ali mesmo, diariamente, pelo chef padeiro, Bruno de Mello. Assim que me disseram que a casa possui uma padaria para a produção própria, mais do que depressa quis conhecê-la.

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De lá saem todas as manhãs pães de centeio, integral, pão francês com crosta de queijo, croissants, pão de miga, muffins, bolos, num café da manhã desses que a gente não tem vontade de deixar a mesa.

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O restaurante não apenas hospedes, mas comensais diversos. É bom ficar atento a programação de verão do lugar e aos chefs convidados. Há inclusive uma festa de réveillon que promete. Custa R$ 350 por pessoa, com comida e open bar. Imagino que a experiência de uma festa assim seja bacana no lugar.

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De qualquer forma, um bate-volta de São Paulo ao restaurante ou a um fim de semana é garantia de diversão e belo cenário garantidos. Caso chova num dos dias, das 9h às 17h, a hospedaria oferece uma estadia grátis num outro fim de semana.

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Serviço: http://tabatingahotel.com.br/

Fotos: Antônio Carrion